
Depois da morte de António Sérgio, um dos maiores e mais importantes comunicadores e difusores de música na rádio portuguesa, seguiu-se a de Claude Lévi-Strauss e Francisco Ayala, vencedor de um Cervantes.
Claude Lévi Strauss era considerado um dos intelectuais mais relevantes século XX, e “pai” da Antropologia moderna, uma corrente que havia de influenciar personalidades como Pierre Bourdieu, Michel Foucault e Umberto Eco. Deixou-nos com conceitos como o Estruturalismo – que havia de retirar do pedestal o existencialismo, muito em voga na França dos anos 60 – e o estudo da complexidade teórica da Mitologia, paralelamente aos trabalhos de Carl Jung, e baseando-se na “criação de mitos em larga escala” de Max Müller.
As influências de Rousseau, Marx, Freud, Descartes e Hegel sobre Lévi Strauss eram claras, principalmente as ideias de Freud sobre o taboo. Talvez o momento mais memorável da vida de Strauss tenha sido aquele debate filosófico aceso com o seu compatriota Jean-Paul Sartre, sobre a natureza da liberdade humana: por um lado, a teoria existencialista de Sartre obrigava-o a aceitar que o ser humano é livre para fazer o que bem entender. Por outro lado, Sartre era um “esquerdista” convicto, pelo que tinha de aceitar a ideia que cada indivíduo era “obrigado”, sem se dar conta, a aceitar os ideais dos mais poderosos. Ecos deste debate entre existencialismo e estruturalismo abalaram a comunidade intelectual da altura, redefinindo a filosofia e antropologia modernas.
O estudo da complexidade da Mitologia é ainda mais intrigante: Strauss encontrou um paradoxo na criação da mitologia. Por um lado, as histórias mitológicas são fantásticas e imprevisíveis; por outro lado, são muito semelhantes entre as várias culturas. Como tal, Strauss propôs que as leis de criação mitológica eram regidas por “leis universais”, numa teoria brilhante, sobre a qual não tenho tempo nem capacidade para falar em grande detalhe. Apenas realçar que vale verdadeiramente a pena ler a obra “O Estudo Estrutural do Mito”.
Como nem tudo são rosas no mundo dos pensadores, e como toda a teoria, desde Karl Popper, está sujeita ao progresso pela crítica, choveram muitas sobre este ensaio de Strauss. Primeiro foi Stanley Diamond a criticar a teoria da Mitologia, argumentando que, apesar de as culturas seculares considerarem a vida e a morte como polares, as mais primitivas viam-nas apenas como aspectos ordinários da “condição da existência”. Diamond acrescentava também que Strauss não havia chegado à sua conclusão pela indução, mas trabalhando de trás para a frente, ou seja, da evidência para os conceitos criados à priori.
Para quem quiser consultar a obra de Strauss
O Estudo Estrutural do Mito