Como representante máxima da nação portuguesa, tanto artística como simbolicamente,Amália Rodrigues já foi biograficamente retratada no silver screen inúmeras vezes
A um ano de se “celebrar” os 10 anos passados da morte desta Senhora, muito mais se podia ter feito para engrandecer a vida (artística, entenda-se) de uma das poucas portuguesas “que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando”.
Carlos Coelho da Silva é o realizador deste biopic, que foi o filme português mais difundido além-fronteiras (em mais de 20 países, entre eles a China, Bélgica e Holanda), e em Portugal (em mais de 60 salas). Talvez este nome não surja imediatamente nas mentes da maior parte das pessoas, mas aparecerá certamente quando se referir que foi ele o realizador do filme português mais visto de sempre, O Crime do Padre Amaro.
Antes de avançarmos para a crítica propriamente dita, vale a pena falar dos actores. Sandra Barata faz a sua estreia em cinema, e logo no papel principal. Faz uma actuação brilhante, encarnando claramente a personagem. José Fidalgo e António Pedro Cerdeira mostram que não são apenas actores de telenovelas, brilhando nos papéis de Francisco Cruz e Ricardo Espírito Santo, respectivamente. Em papéis secundários aparecem também caras conhecidas do grande público, como Carla Chambel, Ricardo Carriço, Ricardo Pereira, João Didelet e António Montez.
Nunca um filme português dividiu tanto as opiniões do público, e com justa causa. Numa altura em que o Fado está em regressão, consequência de uma “actualização” do público jovem, mais direccionado para a música comercial, torna-se perigoso realizar um filme relacionado com esse tema. A simples palavra “Fado” é assustadora e repressiva aos olhos da geração sub-40. Torna-se perigoso principalmente porque o filme estará condenado ao fracasso. Mas então este filme constitui uma antítese em relação aos outros filmes sobre o Fado, ou estarei eu louco o suficiente para contradizer tudo o que tenho dito ao longo desta crítica ?
Nem uma coisa nem outra. Em primeiro lugar, chamar-lhe-ia paradoxo e não antítese. Em segundo lugar, há um factor neste filme que provoca este paradoxo. Esse factor chama-se Amália Rodrigues.
A sua vida artística é bem conhecida do público, mas não tanto a sua vida pessoal.
O filme recria de forma perfeita a vida pessoal de Amália, mas descura por completo a sua vida artística. Esta foi a primeira crítica feita ao filme, fulminado tanto pelos críticos de revistas e jornais, como pelos amadores. É que a vida de Amália não se desdobra em artística e pessoal. Tal como ela dizia, ela cantava a tristeza e a felicidade que sentia.
É sobre essa tristeza que gira o filme inteiro, ao longo de 127 minutos. Amália é caracterizada como sendo interesseira a princípio, e ao mesmo tempo generosa. Desde a má relação com a mãe, a inveja da irmã, a morte da irmã mais nova, o casamento por obrigação com Francisco Cruz, os flirts com Ricardo Espírito Santo e Eduardo Ricciardi, e o casamento final com César Seabra, esta foi a vida da maior fadista portuguesa (e do mundo, já que o Fado é apenas português).
Resumindo tudo o que foi dito, é um filme demasiado dark e exagerado, muito à moda das telenovelas, pouco direccionado para os concertos esgotados no Japão, no Brasil e por todo o mundo, centrando-se mais nos amores e “tendências suicidas” de Amália Rodrigues.